Tangará - Chiroxiphia caudata

 

 

Espécie do sul, esta ave é encontrada desde Minas Gerais até ao Paraguai. 

Vive na mata e é aí, como numa ‘agreste câmara secreta nos templos antigos’, que os tangarás realizam os seus famosos bailes para o acasalamento, o que lhes motivou o nome de dançarinos, ou dançadores, como também são conhecidos. Paulo Zikan já presenciou três dessas danças sendo que na primeira, junto com sua filha, teve o privilégio de assistir três atos completos da dança, isto é, três ciclos repetidos mostrando com isso a presença provável também de três fêmeas para se acasalarem.

Os biólogos Goeldi e Florence descrevem da mesma forma este divertimento. Antes de começar a dançar, há convites, de que os mais foliões tomam a iniciativa, convocando os outros por meio de pios. Aos poucos, o número de participantes aumenta e pios se sucedem em maior quantidade. Zikan notou também nas outras danças que os pios são o primeiro sinal dos convites para a iniciação do espetáculo.

Reunidos os amigos, num longo ramo de árvore despido de folhas, uma fêmea (cor pardo olivácea) fica num extremo e ao lado um grupo de machos. A um sinal dado, um trá-tra bem entusiasticamente emitido, logo se eleva ao ar um dos machos figurantes. Neste instante, os outros se chegam rapidamente um após outro para perto da homenageada. Descreve então no espaço uma curva veloz e elegante enquanto a fêmea avalia a extensão desses galanteios de que é alvo. Após uns segundos, o macho pousa na extremidade do galho oposta à fêmea, ao lado do último da fila. Ainda mal se assentou, de novo soa o sinal e nova curva no espaço é desenhada pelo dançarino seguinte. A fêmea canta e dá pulinhos, sempre no mesmo lugar.

Zikan percebeu que após a apresentação de todos os machos, a fêmea acompanha um deles, escolhido como esposo, companheiro e parceiro na criação de sua prole. Com a alegre brincadeira vai passando o tempo, um quarto de hora, meia hora, até que a outro sinal, um sibilo agudo e intermitente, diferente dos outros sons, tudo cessa magicamente. As 'solteronas' fêmeas naturalmente se desposaram com seus 'maridos'.

Está encerrado o baile. Cada qual vai tratar da vida, sem dúvida após rápida combinação para outra festinha igual, que se realizará, ainda no mesmo dia e local ou talvez em outro sítio.

Esses bailes, como os da espécie humana, têm um fundo de intenção sexual, é evidente. Devemos procurar sempre, rigorosamente, a verdade onde ela esteja, pois em assuntos de ciências naturais precisamos reprimir com veemência a imaginação. Os animais, desde o mais íntimo na escala zoológica até o homem são agitados por dois primordiais objetivos: o desejo de viverem e a necessidade de se reproduzirem, isto é, o instinto de conservação do indivíduo e o da espécie. Não há atos inúteis. Tudo se reduz na conquista do alimento e no ato correlativo da geração.

Darwin, na sua obra a “Descendência do Homem”, tratou com minúcia estas reuniões animais e demonstrou que o amor as inspira. A elas filia, em grande parte, a sua teoria da seleção sexual.

 (Pássaros do Brasil - Vida e Costume - Eurico Santos - 1960).
> Montagem e Artes Gráficas do desenho: Paulo Zikan - 2005 <