PEDRAS DESLOCADAS

UMA PEDRA MILENAR ATRAPALHANDO O CAMINHO ?

De Paulo Zikan

 

Ainda em 1997 topei pela última vez com a pedra achatada lá em cima no contorno da laje da via Pontão nas Agulhas Negras. Existe essa alternativa, usado apenas por montanhistas experientes ou responsáveis de si mesmos, para desafogar o trânsito muito intenso por dentro da gruta ou uma fenda por baixo da laje. Estas duas últimas passagens são usadas pela maioria das pessoas que normalmente vão ao pico, pois não costumam estar em grandes alturas por serem inexperientes em montanha. Existem muitos trechos que podem ser fatais se a pessoa não manter um certo equilíbrio com seu corpo.

Ao passar pelo contorno alguns pisavam na borda dessa pedra para ultrapassar um corredor estreito para os dois pés. Ela balançava um pouco, tinha mais ou menos uns 2 metros de diâmetro e 50 cm de altura na parte mais alta. Despertava nas pessoas um cuidado maior para o perigo logo à frente, um paredão de aproximadamente 30 metros de altura para dentro de uma garganta. Parece que a tal pedra estava ali daquele jeito exatamente para cumprir essa função: alertar as pessoas já exaustas e com as pernas 'cambaleantes' no retorno do cume.

No feriadão em setembro de 1999 havia bastante montanhistas no Planalto. Estava formado um grupo comigo e mais  seis montanhistas experientes do Rio (CEL) para realizarmos uma aventura que há muito eu desejava e não surgia parceiro. Fazer pela primeira vez um percurso passando pela Asa de Hermes, parte do Vale Pré-histórico, atravessar por trás das Agulhas Negras (face Leste) e subir a via Pontão lá por trás. Partirmos com um pouco de atraso, mas levávamos tudo que precisássemos para emergências incluindo lampião portátil, xá, café e fogareiro de benzina para fazê-los. O pessoal era muito bom nisso e eu me sentia em casa com eles.

Todo o passeio transcorreu relativamente bem. Devido às grandes rajadas de vento e o frio insuportável, não foi possível escalar a Asa de Hermes. Após um lanche 'gelado', descemos a rampa da Asa e passamos por um corredor que nos levou por detrás das Agulhas. Tudo se transformou de repente a partir daí, não havia ventos, era mais quente e tremenda paz realmente sente-se no local. Tive muita sorte obtendo esta foto inédita no portal do Vale Pré-histórico e Vale da Paz. Aproveitei uma rajada de sol e corri até este ângulo pulando sobre brechas profundas, e registrei.


"A SERPENTE E O LAGARTO"
O lagarto está protegendo o pequeno filhote sob sua cabeça.
Os montanhistas que eu guiava sobem na rampa à esquerda da pedra.
Pouquíssimos montanhistas vivenciaram este cenário lunar.
Parte do imenso Vale da Paz aparece na foto e ao fundo a Serra do Maromba.

 


 

Um pouco antes da última rampa de subida já se via e ouvia pessoas lá no alto dos cumes das Agulhas. Neste lugar notamos acima em nossa direita a vegetação totalmente estraçalhada. Havia acontecido recentemente, pois não estava totalmente seca. Como se um disco voador desenfreado deslizasse rampa abaixo, foi esmagando tudo em seu caminho. Aproximei do final dessa 'clareira' e vi uma enorme pedra 'achatada' que foi a causadora daquele prejuízo. Há neste local muitas árvores grandes, ilhadas por rampas de pedra e protegidas de incêndios. Já são coisa rara, no Planalto, esses 'oásis' verdes.

No exato momento que olhei para a pedra meu subconsciente dizia que já a conhecia de algum lugar. As lembranças foram aumentando conforme eu subia tentando passar por entre os destroços. Não sei porque, mas algo me empurrava cada vez mais para cima e me afastava do grupo. Eles me aguardavam, pois eu era o guia, e chamavam por mim. Eu respondia 'já estou indo', mas na verdade eu estava indo rápido para a garganta lá em cima, aproveitando minhas pernas compridas para esses momentos, mas já cansadas. Nesse interin eu já começava a imaginar de onde teria vindo a pedra e conseqüentemente a causa que iniciou aquele desastre. Pedras podem rolar naturalmente, mas ali havia uma coincidência que me intrigava.

Chegando dentro da garganta não vi mais árvores amassadas à minha frente. Notei no chão pequenas lascas de pedra ainda limpas (sem liquens e musgos) e marcas de um grande impacto. Após um tremor dentro do meu corpo, instintivamente olhei rapidamente para cima como se iria ser 'achatado' por outra pedra igual caindo sobre mim.
Acima de mim, no alto do paredão, identifiquei a passagem. Escutei vozes vindo provavelmente de pessoas que utilizavam a gruta. É claro que naquele momento eu não tinha mais dúvidas sobre como caiu aquele objeto que nunca provocou a queda de ninguém.
Meu grupo compreendeu minha tarefa, que só se completaria lá em cima com a certificação final e foi um descanso para eles, pois eu estava exausto com aquele sobe e desce.

OBS: Nós, montanhistas e guias passamos incontáveis vezes num mesmo lugar através de décadas.
 Sem que percebamos, muitas coisas ficam gravadas em nossa mente.
E um dia podemos notar a falta ou acréscimo de alguma coisa inconscientemente.

Depois de subirmos a última rampa e fazer uma chaminé chegando à laje da gruta, imediatamente fui até a passagem, pois já estava anoitecendo. Senti um vazio enorme naquele lugar que agora estava sem a obstrução. Alguns do grupo estavam comigo e constatamos as pequenas elevações na rocha base que eram o apoio da pedra durante milênios. É uma base grande plana e praticamente horizontal.

" No Brasil não acontecem tremores de terra ou abalos de trovões
o suficientes para deslocarem aquele pesado marco histórico."

Não há duvidas que um grupo de vândalos fez aquela façanha. Não são montanhistas, pois não possuem ética. Devem ter empurrado a pedra com os pés lá para baixo liberando a passagem ou talvez então como brincadeira de mau gosto para fazerem 'algo diferente' perante outros e acabaram praticando aquele ato idiota. Na verdade, o espaço vazio e perigoso para o paredão ficou maior dois metros. Antes, a pedra balançando despertava mais atenção para a passagem. Agora, quem passar por ali tem que olhar bem onde pisa, pois poderá tropeçar nas saliências que ficaram expostas enquanto vão atravessando e olhando o buraco ao lado com o canto dos olhos.

Não aconselho inexperientes e principalmente crianças a usarem essa passagem. Ficou mais perigosa e sem proteção. É como subir numa escada sem o corrimão. Desde 1970 caminho pelos topos das montanhas e em incontáveis subidas aos seus cumes, lembro-me que passei poucas vezes por ali e na maioria delas sem estar conduzindo ninguém. Infelizmente, o aumento de visitantes aos cumes sem a orientação e acompanhamento de guias conscientes, tem provocado uma série de problemas. Traz inconveniências para os Parques Nacionais e para nós montanhistas formados através de cursos e experiências em clubes de montanhismo, prestando ajuda voluntária também no socorro em casos de sinistros. "Aprendemos a preservar para outros, no presente e no futuro".

O outro caso idêntico aconteceu no 1o mirante panorâmico à direita das Prateleiras.
Os dois blocos de pedra estão caídos e as saliências onde se apoiavam são percebidas logo acima na base.