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Um pouco
antes da última rampa de subida já se via e ouvia pessoas lá no alto
dos cumes das Agulhas. Neste lugar notamos acima em nossa direita a
vegetação totalmente estraçalhada. Havia acontecido recentemente, pois
não estava totalmente seca. Como se um disco voador desenfreado deslizasse
rampa abaixo, foi esmagando tudo em seu caminho. Aproximei do final
dessa 'clareira' e vi uma enorme pedra 'achatada' que foi a causadora
daquele prejuízo. Há neste local muitas árvores grandes, ilhadas por
rampas de pedra e protegidas de incêndios. Já são coisa rara, no Planalto,
esses 'oásis' verdes.
No exato
momento que olhei para a pedra meu subconsciente dizia que já a conhecia
de algum lugar. As lembranças foram aumentando conforme eu subia tentando
passar por entre os destroços. Não sei porque, mas algo me empurrava
cada vez mais para cima e me afastava do grupo. Eles me aguardavam,
pois eu era o guia, e chamavam por mim. Eu respondia 'já estou indo',
mas na verdade eu estava indo rápido para a garganta lá em cima, aproveitando
minhas pernas compridas para esses momentos, mas já cansadas. Nesse
interin eu já começava a imaginar de onde teria vindo a pedra e conseqüentemente
a causa que iniciou aquele desastre. Pedras podem rolar naturalmente,
mas ali havia uma coincidência que me intrigava.
Chegando dentro
da garganta não vi mais árvores amassadas à minha frente. Notei no chão
pequenas lascas de pedra ainda limpas (sem liquens e musgos) e marcas
de um grande impacto. Após um tremor dentro do meu corpo, instintivamente
olhei rapidamente para cima como se iria ser 'achatado' por outra pedra
igual caindo sobre mim.
Acima de mim, no alto do paredão, identifiquei a passagem. Escutei vozes
vindo provavelmente de pessoas que utilizavam a gruta. É claro que naquele
momento eu não tinha mais dúvidas sobre como caiu aquele objeto que
nunca provocou a queda de ninguém.
Meu
grupo compreendeu minha tarefa, que só se completaria lá em cima com
a certificação final e foi um descanso para eles, pois eu estava exausto
com aquele sobe e desce.
OBS: Nós, montanhistas e guias passamos incontáveis
vezes num mesmo lugar através de décadas.
Sem que percebamos, muitas
coisas ficam gravadas em nossa mente.
E um dia podemos notar a falta
ou acréscimo de alguma coisa inconscientemente.
Depois de
subirmos a última rampa e fazer uma chaminé chegando à laje da gruta,
imediatamente fui até a passagem, pois já estava anoitecendo. Senti
um vazio enorme naquele lugar que agora estava sem a obstrução.
Alguns do grupo estavam comigo e constatamos as pequenas elevações na
rocha base que eram o apoio da pedra durante milênios. É uma base grande
plana e praticamente horizontal.
" No Brasil
não acontecem tremores de terra ou abalos de trovões
o suficientes para deslocarem aquele pesado marco histórico."
Não há
duvidas que um grupo de vândalos fez aquela façanha. Não são montanhistas, pois não possuem ética.
Devem ter empurrado a pedra com os pés lá para baixo liberando
a passagem ou talvez então como brincadeira de mau gosto para fazerem
'algo diferente' perante outros e acabaram praticando aquele ato idiota.
Na verdade, o espaço vazio e perigoso para o paredão ficou maior dois
metros. Antes, a pedra balançando despertava mais atenção para a passagem.
Agora, quem passar por ali tem que olhar bem onde pisa, pois poderá
tropeçar nas saliências que ficaram expostas enquanto vão atravessando
e olhando o buraco ao lado com o canto dos olhos.
Não
aconselho inexperientes e principalmente crianças a usarem essa passagem.
Ficou mais perigosa e sem proteção. É como subir numa escada sem o corrimão.
Desde 1970 caminho pelos topos das montanhas e em incontáveis subidas
aos seus cumes, lembro-me que passei poucas vezes por ali e na
maioria delas sem estar conduzindo ninguém. Infelizmente, o aumento
de visitantes aos cumes sem a orientação e acompanhamento de guias conscientes,
tem provocado uma série de problemas. Traz inconveniências para os Parques
Nacionais e para nós montanhistas formados através de cursos e experiências
em clubes de montanhismo, prestando ajuda voluntária também no socorro
em casos de sinistros. "Aprendemos a preservar para outros,
no presente e no futuro".
O outro caso idêntico aconteceu no 1o
mirante panorâmico à direita das Prateleiras.
Os dois blocos de pedra estão caídos
e as saliências onde se apoiavam são percebidas logo acima na base.
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