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Domingo,
dia 9 de junho de 1985. Noites super frias na Região das Agulhas Negras.
As 21:00 horas, recebi um telefonema de Engenheiro Passos (distrito
de Resende) de uma voz feminina pedindo urgente auxílio do GEAN (Grupo
Excursionista Agulhas Negras) para enviar um grupo de resgate, ainda
à noite, para procurar dois jovens que escalaram de manhã o rochoso
das Prateleiras e que até ao cair da noite não haviam retornado ao portão
do Parque Nacional do Itatiaia. O tempo fechara às 15 horas e à noite
estava nevando na montanha.
Por ligações telefônicas
prontamente atendidas juntamos um grupo de 7 geanistas sendo eles: Jarí,
Carlos Zikan, Lacerda, Jóbson, Paulo Zikan, Júlio Spanner e eu. Não
consideramos tanto o que a moça dissera referente a “nevando na montanha”
quando contei aos colegas. Já haviam se passado 9 anos que o último fenômeno
acontecera na região (julho de 1976). As minhas objeções era de que durante
a noite não se podia fazer muita coisa. A moça pedia insistentemente para
fazer algo imediatamente porque uns dos jovens estava só de camiseta.
O Paulo levou os seis
primeiros com sua camioneta e o Júlio foi em outra camioneta do Parque
junto com 2 guardas. Após
vencermos uns obstáculos num dos carros, pois o motor não queria pegar
por falta de combustível e procuramos um posto para abastecer. Devido
as leis de fechamento dos postos após 22 horas, com a presença dos guardas-parque
e explicando a nossa missão, conseguimos abastecer e seguir viagem partindo
de Itatiaia perto da meia-noite.
Logo no começo da estrada de terra notamos sinais de geada forte, e a
partir do km 8 percebemos uma precipitação bem fina, indefinida. No km
10 ela se definiu claramente como neve e logo em seguida já vimos a neve
no chão. Paramos os carros e já começou a “batalha” de neve jogada de
uns sobre os outros. As bolas voavam para lá e para cá. Com os faróis
acesos via-se os flocos prateados caindo, com certa lentidão, pois são
constituídos de água congelada super oxigenada tornando-os leves.
Prosseguindo, os carros começaram a deslizar de lado sobre placas lisas
de gelo abaixo da camada de flocos que derretera inicialmente com o calor
do solo. Com a perícia dos motoristas e o peso já dos passageiros sobre
os para lamas traseiros conseguimos chegar até o Abrigo Rebouças ao final
da estrada. Vimos 3 carros cobertos por uma camada de pelo menos 10 cm
de neve e as janelas com uma camada de flocos de gelo em cristais. Eram
2 horas da madrugada e a nevasca estava terminando.
Organizamo-nos
logo com material para escalada, pronto-socorro, comida, 1 garrafa de
conhaque Dreher, lanternas e um lampião. Os ocupantes do abrigo emprestaram,
muito prontamente, calças, paletós, meias e botas e ofereceram chocolate,
toddy, café, pão, enfim colocaram tudo que tiveram à nossa disposição.
Fomos todos os geanistas e um dos guardas em direção às Prateleiras.
Que sensação gostosa de caminhar sobre a neve numa camada entre 10 a 15
cm. No começo a novidade deste andar, como em areia seca de praia, animou
nossos passos; mas com o tempo percebemos quão cansativo é este andar
diferente. Quantas vezes caímos e escorregamos. Da roupa dava para sacudir
e retirar facilmente, mas os sapatos e botas não ofereceram proteção à
umidade gelada e penetrante da neve. Enquanto andávamos tudo estava bem,
mas um minuto parado e os pés começavam a doer de frio dentro das meias
encharcadas.
Assim caminhamos até a base das Prateleiras, onde chegamos pelas 3 ½ horas.
A meia lua apareceu entre as nuvens e iluminou a montanha nevada. Uma
paisagem fantástica, fantasmagórica, inesquecível. No outro lado da Vale
das Flores as Agulhas Negras ainda surgia escurecidas sob sua própria
sombra lunar. De vez em quando parávamos para dar gritos que se perdiam
na imensidão branca, às vezes ouvia-se uma fraca resposta que nos enchia
de esperança, mas logo era desfeita como um logro do vento soprando no
lampião ou nas lanternas.
Na
base dividimo-nos em 2 grupos: 4 escaladores – Carlos, Júlio, Jóbson e
Jarí iam tentar subir as Prateleiras pela via sul, enquanto os restantes
4: Paulo, Lacerda, o guarda e eu iam dar uma busca em torno das pedras
da Tartaruga e da Maçã. Todos os nossos gritos e buscas tornavam-se infrutíferos.
Os escaladores não conseguiram subir as rochas repletas de camadas soltas
de neve, não permitindo uma escalada segura, e para uma escalada em neve
e gelo não tínhamos equipamento adequado. Por volta das 4 horas, o segundo
grupo resolveu voltar ao abrigo. Nossas pegadas ficavam marcadas nas trilhas,
nas rampas e ao redor das maiores pedras e elevações que observávamos.
Se os 2 perdidos não estavam nas Prateleiras só poderiam ter se perdido
em direção ao Morro do Couto, e enfrentar esse caminho, sem trilha visível,
com neve e de noite seria exigir esforços sobre-humanos. No abrigo trocamos
nossas roupas e sapatos molhados que tentamos secar junto ao fogão à lenha
e reforçamos nossos corpos com alguma alimentação, uns até dormiram um
pouco. Logo depois apareceu só o Carlos. Os outros 3 do grupo foram ao
abrigo Massenas, contou. A esperança de encontrar os perdidos naquele
lugar era muito remota, porque já teriam se perdido na manhã com tempo
claro teriam retornado sem problemas.
As
6 ½ horas apareceu o sol. Que espetáculo ! O telhado do abrigo (foto),
todas as folhas de capim e árvores, todos os galhos, tudo tinha uma camada
de gelo em volta que cintilava como cristais com a incidência dos raios
solares. Agora as máquinas fotográficas começaram a trabalhar. Pouco antes
das 9 horas, Carlos, Paulo, eu e 2 voluntários do abrigo tomaram de novo
a trilha às Prateleiras.
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A brancura era tão forte que doíam nossas vistas. Numa bifurcação da
trilha recebemos, aos nossos gritos, uma resposta negativa do Júlio
que retornava com o grupo do Massenas. Estava perto, numa trilha lá
embaixo, e logo a seguir um sinal leve de dúvida apontando em direção
das Prateleiras. Ficamos todos ali aguardando para ver do que se tratava.
Logo depois surgiram duas pessoas descendo a trilha. Não dava para reconhece-los.
Quando apareceram na próxima colina, os voluntários do abrigo que estavam
conosco começaram a acenar com enormes sorrisos e lágrimas nos olhos
identificando os dois perdidos, Jean Claude e Walter. Que encontro alegre
e feliz ! O retorno dos perdidos foi festejado com a volta da garrafa
de Dreher.
O relato dos dois perdidos:
“Domingo
de tarde, lá pelas 3 horas, fechou o tempo de tal forma que nós tínhamos
uma visibilidade abaixo de 30 metros de distância. Nesta busca cega
pela trilha de volta ao Abrigo Rebouças passamos perto de um lago, (do
vale da Tartaruga e Maçã) e descemos para o outro lado das Prateleiras,
oposto à trilha normal onde, no meio do mato, encontramos umas lajes
de pedras por baixo dos quais nos abrigamos protegidos do vento. Agasalhos
que levávamos na mochila, um pouco de comida e movimentação em tipo
de ginástica ajudaram para que nós passássemos relativamente bem a noite.
Estávamos tão bem abrigados que não percebemos a nevasca. Ficamos surpresos
com a neve agora de manhã. Procurando o caminho de volta encontramos as pegadas, naturalmente de vocês, e estamos aqui.”
Jamais teríamos desconfiado do paradeiro deles nesta direção. A nossa
volta foi uma questão de juntar a turma, fazer os carros pegarem e tentar
passar pelas equipes de repórteres da Manchete e da Globo e pelas caravanas
de conhecidos da região que não conseguiram subir com seus carros. Na
descida fotografamos ainda uma vista panorâmica lindíssima dos penhascos
nevados do Morro do Couto até as Prateleiras com seus perfis iluminados
pelo sol.
"Bariloche
ou Suíça ? Aqui no Rio de Janeiro temos a nossa própria estação de neve
!!!"
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